
Houve uma época, muitos e muitos anos atrás, quando eu ainda acreditava em todas as pessoas, e achava que todos eram bons e ficava sentado na soleira da porta, esperando por meu pai. Ele sempre trabalhou muito, mas o que nos mantinha afastados não era o trabalho, era algo mais poderoso, que mesmo o amor de seus três filhos (Minha irmã, eu e meu irmão) não pode vencer. O que mantinha-nos afastados era o Bar, contra o qual nunca pude concorrer.
Meu pai saia do trabalho as 16:00h, ia direto para o bar, ficava lá até as 17:30, vinha para casa completamente embriagado, parecia odiar a si mesmo, a mulher e os filhos. Certa vez ele nos bateu (em mim e em meus irmãos) sem qualquer motivo. Sempre esperei meu pai na soleira da porta, jamais ele veio, sempre passava por mim era aquele homem do bar, trôpego, agressivo, e mau. Para compensar sua ausência meu pai dava dinheiro, não que fosse muito, mas sempre tive o que queria, exceto meu pai, este era propriedade exclusiva do bar.
Passaram infância e adolescência, virei homem e comecei a cuidar de minha própria vida, não o esperava mais na porta, sabia que não viria, desisti. É claro que nunca ter conhecido meu pai trouxe-me consequências terríveis, em primeiro lugar o único modelo masculino que eu tinha a minha disposição era um bêbado, o que, deve-se convir, não é o melhor exemplo para a formação do carater de ninguém; em segundo lugar eu tive que aprender muita coisa no mundão, o que com certeza, embora seja eficaz, não é nada seguro e, por fim, perdi o amor, que tive, por meu pai.
Quero deixar bem claro que eu não o odeio, pois se odiasse implicaria em me importar com seu destino; este homem simplesmente não significa para mim mais que um desconhecido por quem eu passo na rua. É exatamente isso, meu genitor não provoca em mim maior simpatia que o tiozinho que passa em frente do meu trabalho vendendo sorvete, embora o tiozinho do sorvete costumeiramente me dê atenção quando falo e seja muito mais gentil.
Daqui alguns anos, depois que meu pai tomar a última dose, ele vai chegar em casa que estará toda apagada, acenderá a luz e procurará por sua família, então, se lembrará que os filhos o deixaram, a mulher o abandonou e que restou-lhe somente o bar. Quem sabe, então, ele seja finalmente feliz. Se me ligar e perguntar, onde estou, se não quero estar com ele, responderei:
- Talvez você devesse buscar no bar, que foi sempre sua prioridade, algum alento para sua solidão.
Eu já o perdoei, mas isso não significa que tenho que conviver com uma pessoa que só tornou minha vida infeliz.