
Do Ano novo:
“Memento homo quia és pulvis et in pulvis reverteris”; lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás – está máxima diz respeito ao futuro e ao que todos esperamos dele. Almejamos que o amanhã traga consigo novas chances, ou, pelo menos, a solução para nossos problemas; grandes ou pequenos. Entretanto, se apenas houvesse amanhã, perder-se-ia de vista o que temos para resolver hoje; ou como disse Horácio: “Carpe diem quam minimun credula postero”; aproveita o teu dia, confia o mínimo no amanhã.
Então, como viver? “De olho” na esperança do futuro, ou na responsabilidade do presente? É evidente que não existe uma resposta definitiva para essas questões, e nem pretendo dar uma, mas dissertar sobre o assunto. É que, no ano novo, sempre tem gente fazendo promessas de que tudo mudará no ano que chega, para no fim viver o mesmo que no ano anterior.
Para falar de futuro, primeiramente devo definir o que é tempo.
“O tempo é o regulador da vida, é o período que vai de um acontecimento anterior a um acontecimento posterior, uma mudança continua, ou assim considerada, pela qual o presente vira passado” (Santos 1952).
O futuro é, portanto, o período de tempo que se inicia após o presente e não tem um fim definido; referente a algo que irá acontecer, tempo por ocorrer. Para alguns é uma realidade ontológica; é um espaço virgem por descobrir e compreender plenamente.
Não por acaso, a definição de futuro freqüentemente remete à de esperança, que é a expectativa; ou crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos futuros. Segundo a bíblia, “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” (Hebreus 11:1). Também não é por acaso que a fé e a esperança estão, em geral, muito ligadas; pois, no fundo, uma depende da outra para existir e, nesse sentido, o futuro é o momento mais propicio para que mudanças ocorram na nossa vida.
Todavia, o futuro, na realidade, sequer existe; como já disse, o futuro é, por definição, conseqüência direta do que ocorre no presente, e este por sua vez é resultado direto do passado e assim por diante. É esse tipo de silogismo que leva a muitos viver “correndo atrás” do futuro, se esquecendo do presente, a acumular o máximo de riqueza agora para “aproveitar depois”.
Na prática, não é isso que ocorre; quantas promessas de ano novo você já cumpriu? Quantas delas ficaram relegadas ao amanhã? – “Amanhã eu começo o regime”; “Amanhã, sem falta, eu como a caminhar e ir à academia”... Acontece que esse amanhã nunca chega. A tendência é acumular ainda mais capital e, “no fim das contas da vida, noves fora igual a zero”. Por isso, afirmo que é preciso sim se preocupar com o futuro, mas sem nos esquecermos do presente, ou, como diria Renato Russo: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade, não há”; e também, porque, no fim, tudo é pó e somos somente poeira ao vento.
BIBLIOGRAFIA:
SANTOS, M.F dos. Filosofia e cosmovisão. Edanee:[sl]1952. p 66.